Ação Direta, de Rob Sparrow

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A característica da ação direta é que ela busca chegar aos nossos objetivos por meio de nossas próprias atividades, ao invés de tentar isso por meio da ação de outros. A ação direta busca exercer o poder diretamente sobre os assuntos e as situações que nos dizem respeito. Dessa maneira, ela diz respeito à tomada do poder pelas próprias pessoas.

Nisso, ela se diferencia da maior parte de outras formas de ação política como as votações, os lobbies, as tentativas de se exercer pressão política com ações industriais ou midiáticas. Todas essas atividades buscam outras pessoas para alcançar nossos objetivos. Tais formas de ação funcionam com base na aceitação tácita de nossa própria fraqueza. Elas reconhecem que não temos nem o direito e nem o poder de influenciar a transformação. Tais formas de ação são, portanto, implicitamente conservadoras. Elas reconhecem a autoridade das instituições existentes e trabalham para evitar que atuemos, por nossa conta, para transformar o status-quo.

A ação direta repudia a aceitação da ordem existente e sugere que temos tanto o direito, quanto o poder, de transformar o mundo. Isso é demonstrado quando a ação direta é realizada. Os exemplos de ação direta incluem bloqueios, piquetes, sabotagens, ocupações, colocações de barras de metal em árvores[2], greves parciais, reduções no ritmo de trabalho[3] e a greve geral revolucionária. Na comunidade, ela envolve, entre outras coisas, o estabelecimento de nossas próprias organizações como as cooperativas de alimentos, as televisões e as rádios às quais a comunidade tem acesso, e que expõem nossas necessidades, o bloqueio da construção de uma rodovia que divide e envenena as nossas comunidades e a ocupação de moradias por necessidade. Nas florestas, a ação direta interpõe nossos corpos, nossa vontade e nossa ingenuidade entre a selva e aqueles que a destruiriam. Além disso, ela age contra os lucros das organizações que dirigem a exploração da natureza e contra essas próprias organizações. Na indústria e nos locais de trabalho, a ação direta tem também por objetivo aumentar o controle dos trabalhadores ou atacar diretamente os lucros dos patrões. As sabotagens e as reduções no ritmo de trabalho são técnicas populares e consagradas pelo tempo ao negar aos patrões os lucros da exploração de seus escravos assalariados. As greves parciais e as greves selvagens são formas de iniciar o conflito industrial que ataca diretamente os lucros dos patrões. No entanto, a ação industrial que é empreendida meramente como uma tática de parte das negociações para ganhar um aumento de salário ou outras concessões de um patrão, não é um exemplo de ação direta.

Como os exemplos de ação direta na comunidade citados acima sugerem, a ação direta é mais do que responder às injustiças ou às ameaças do Estado. A ação direta não é apenas um método de protesto, mas também uma forma de “construir o futuro agora”. Qualquer situação em que as pessoas se organizem para aumentar o controle sobre suas próprias condições, sem recorrer ao capital e ao Estado, constitui a ação direta. “Fazer nós mesmos” é a essência da ação direta, e não importa se o que estamos fazendo é resistir às injustiças ou nos esforçar para criar um mundo melhor agora, organizando-nos para satisfazer nossas próprias necessidades sociais. Esse tipo de ação direta, por razão de ser autônoma ao invés de ser uma resposta às atividades do capital e do Estado, oferece muito mais oportunidades para prosseguir com as ações e também para o sucesso. Podemos definir nossos próprios objetivos e atingi-los por meio de nossos próprios esforços.

Um dos aspectos mais importantes da ação direta é a organização envolvida para que ela tenha sucesso. Por meio da organização para atingir, nós mesmos, os nossos objetivos, aprendemos valiosas práticas e descobrimos que a organização sem hierarquia é possível. Nos lugares em que ela tem sucesso, a ação direta mostra que as pessoas podem controlar suas próprias vidas – e de fato, que a anarquia é possível. Podemos ver aqui que a ação direta e a organização anarquista são, de fato, dois lados da mesma moeda. Quando demonstramos o sucesso de uma, demonstramos a realidade da outra.

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